Numa busca matutina do cotidiano
Olho de soslaio para um canto qualquer
Logo, sobre a mesa enxergo estática
Aquela forma singular e inflexível,
Pedante, sem esconder que o é.
Olho-a mas não sinto-me olhado de volta
Como boa parte dos móveis (imóveis)
Que compõem essa natureza morta,
Como o espelho que replica a real(idade)
As gavetas, os mancais, o chão e a porta.
Inteiro-me dos seus mínimos detalhes
Frio e despido de botânicos estereótipos
Admiro os contornos dados ao polímero
E o preço ainda fixo num obsceno rótulo
Acabo por concluir que essa imitação barata
É uma heresia para qual não há propósito.
As flores de plástico que não morrem
Vejo esbanjarem sua soberba à mesa,
Talvez, por gozarem de tal imortalidade
Não murchando ao calor que as rodeia
É que sejam imunes ao tempo-espaço
E aos olhares duvidosos que as permeia,
Assim fazem-se artificialmente indelicadas
Sem exalar perfume ou receber visita alheia
Quiçá não fossem essas flores de plástico
Inertes à mudança e resistentes à poeira
Quem sabe assim não seriam cultivadas
Não pelo baixo custo, e sim pela beleza.
por Júnio Liberato
Deixe um comentário